SegunDA de Esperança, by ADERMAP

 
SegunDA de Esperança, by ADERMAP
12 de outubro de 2020
 
Para mais uma SegunDA de Esperança, a ADERMAP perguntou a um dos seus especialistas médicos algumas perguntas sobre o panorama atual e futuro de opções de tratamento da DA.Veja abaixo as suas respostas:
 
  1. Tratamento de Dermatite atópica (DA) trocado por miúdos: como tratar este problema de pele?

A DA, também conhecida como eczema atópico, é uma doença de pele crónica, imuno-mediada, que não tem uma causa simples ou única: é determinada pela interação entre fatores de predisposição genéticos e fatores ambientais. Apesar da sua fisiopatologia não estar ainda totalmente elucidada, as alterações na barreira cutânea e um sistema imunitário com erros de funcionamento na pele são os dois vetores fundamentais para o desencadear e perpetuar da DA. Cada doente é um caso único, mas o tratamento deve sempre dirigir-se a estes dois pontos: melhorar a função barreira da pele e reduzir esta inflamação disfuncional que ocorre nas lesões de dermatite (chamadas eczema).

 

  1. Quais os tratamentos farmacológicos atualmente disponíveis para a DA?

Quando falamos de melhorar a função barreira da pele, referimo-nos à utilização de produtos bem formulados de higiene e emolientes (cremes hidratantes). A importância destes produtos deve-se precisamente à sua capacidade de “isolar” de forma mais eficaz uma barreira cutânea demasiadamente “porosa” e exposta ao ambiente que nos rodeia. A utilização de produtos de higiene que não fragilizem mais uma pele já de si frágil é fundamental. A utilização de cremes que possam reforçar e mimetizar os componentes da barreira da epiderme que estão em quantidades reduzidas/ausentes na pele de um paciente com DA é também crucial para otimizar a função barreira. Globalmente, apesar de essenciais, estes produtos não são medicamentos.

Os medicamentos atualmente disponíveis para o tratamento da DA visam o segundo ponto que referi anteriormente: controlar a inflamação que é disfuncional. Existem, assim, medicamentos tópicos (de aplicação na pele) como os corticoesteróides de diferentes potências e em várias formulações (emulsão, solução, creme, pomada, etc) bem como os inibidores da calcineurina (em creme ou pomada). Nos casos de DA moderada-a-grave, complementando os medicamentos tópicos, estão aprovados dois medicamentos sistémicos: a ciclosporina A e o dupilumab.

 

  1. Que novas terapêuticas têm surgido recentemente, a nível nacional/internacional, que mereçam destaque?

Olhando para os medicamentos disponíveis, a verdade é que existem duas enormes lacunas: nos tópicos, fazem falta novas opções, particularmente que não sejam derivados de cortisona; nos sistémicos, tratamentos para as formas moderadas-a-graves de DA que sejam mais eficazes e seguros.

Reconhecido o enorme impacto que as doenças dermatológicas podem ter na vida dos pacientes, nunca como agora a DA mereceu tanta atenção a nível de investigação. A investigação de medicamentos é regida por elevados padrões de exigência e segurança, sendo o custo de colocar um medicamento no mercado extremamente elevado. Em grande parte, este custo advém da necessidade de serem realizados ensaios clínicos em várias fases e durante vários anos para se poder submeter um novo medicamento à avaliação das agências do medicamento, como a FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos da Américas ou a EMA (European Medicines Agency) na Europa. Apenas depois da avaliação dos estudos resultantes dos ensaios clínicos poderá um medicamento penetrar o mercado e tornar-se acessível aos doentes de que dele necessitem.

Falando de medicamentos tópicos para DA, o destaque irá sem dúvida para a chegada de novos tratamentos tópicos que não contêm derivados de cortisona. Estes estarão indicados para as formas ligeiras de DA ou como complemento dos sistémicos no tratamento dos doentes mais graves, principalmente em áreas de pele sensível. Falamos de novas opções terapêuticas como o crisaborole em pomada, um medicamento que pertence à classe dos inibidores da fosfodiesterase. Este medicamento foi submetido a um exigente processo de investigação, quer em idade adulta como em idade pediátrica, e deverá chegar à Europa num futuro próximo. Ainda nos tópicos, pertencendo a uma nova classe terapêutica chamada inibidores da JAK, há várias moléculas em ensaios clínicos especificamente na DA, devendo também tornar-se disponíveis em breve.

Quanto aos medicamentos sistémicos, é importante realçar os medicamentos injetáveis biotecnológicos e as novas moléculas orais. Começando pelos biotecnológicos, estes são anticorpos produzidos em laboratório e resultantes de engenharia biológica que impedem a ação das chamadas interleucinas, mensageiros de comunicação entre as nossas células imunitárias e da pele. O dupilumab foi o primeiro biotecnológico aprovado para a DA mas vários outros fármacos estão em investigação neste momento, como o tralokinumab ou o lebrikizumab. Quanto aos medicamentos orais, convém salientar os inibidores da JAK; estão também estão em ensaios clínicos formulações em comprimidos, para além das formulações tópicas já referidas. Esta classe interfere com uma via de sinalização dentro das células (a chamada via JAK-STAT), constituindo também uma enorme esperança para os casos mais difíceis de DA. Pertencendo aos inibidores da JAK, fármacos como o baricitinib, upadacitinib ou abrocitinib são nomes que provavelmente se somarão às opções atualmente disponíveis para o tratamento da DA.

 

Pedro Mendes Bastos, MD

Médico especialista em Dermatologia e Venereologia

Investigador em Ensaios Clínicos (Dermatite atópica e outras doenças dermatológicas imuno-mediadas)

Consultor Científico da ADERMAP – Associação Dermatite Atópica Portugal